Manifesto de lançamento do 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores

 

A severa crise do capitalismo moderno, cujo epicentro está no funcionamento do sistema financeiro global, vem se agravando desde a sua eclosão, em 2008. A crise não é meramente cíclica; ela é estrutural e civilizatória, com consequências nefastas para os países do Sul Global, sobretudo as nações mais pobres e com dívidas impagáveis às instituições do chamado mercado.

 

O colapso da arquitetura do sistema financeiro global e, inevitavelmente, dos fóruns multilaterais que lhes dão sustentação, impõe enormes desafios aos partidos de esquerda e a todos aqueles que desejam a sobrevivência e o progresso da humanidade. A instabilidade econômica e a desigualdade social crescente geraram um terreno fértil para o avanço do extremismo de direita e do neofascismo, que oferecem uma resposta autoritária e destrutiva para um mundo cada vez mais fragmentado. No Brasil, vivenciamos uma das faces mais boçais desse movimento, o bolsonarismo, que destroçou o tecido social do país, ameaçou a democracia e, agora, segue atacando a nossa soberania.

 

O PT faz também sua a missão de propor caminhos para a construção de uma nova ordem política, econômica e social, na qual o papel do Estado seja redimensionado para responder aos anseios e necessidades reais da população do campo e das cidades. A superação da crise global passa, necessariamente, pela construção de uma nova governança mundial que seja, de fato, justa, democrática e multipolar.

 

No Brasil, o projeto que envolve a expansão sustentada do PIB, a ampliação dos investimentos produtivos e sociais e a geração de empregos de qualidade não será bem-sucedido sem uma forte mobilização pela redução dos juros, condição decisiva para um crescimento que preserve o poder de compra do povo brasileiro. O efeito mais nocivo das taxas de juros praticadas no Brasil é o rentismo, cujo sistema parasitário drena recursos do Estado e afasta investimentos produtivos do setor privado.

 

Em um mundo disruptivo, o Brasil, sob a liderança do presidente Lula, ressurge como uma força de estabilidade, diálogo construtivo, progresso e transformação. Na presidência do G20, o país pautou os grandes debates globais, defendendo a reforma do sistema financeiro internacional, o perdão da dívida dos países mais pobres e a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. A discussão sobre novos mecanismos para fortalecer o comércio multilateral, no âmbito do BRICS, faz parte da construção de um mundo livre da tutela de potências hegemônicas.

 

A defesa da soberania nacional está intrinsecamente ligada à liderança na agenda climática. O Brasil já se posiciona como líder da transição energética justa, oferecendo à juventude não apenas um discurso ambiental, mas uma perspectiva concreta de futuro. Ao defender a proteção da Amazônia, o país não abre mão do processo de reindustrialização que permitirá a consolidação de um projeto de desenvolvimento nacional. O Brasil de Lula não apenas participa do debate global, mas o lidera, oferecendo, com ampla participação popular, soluções concretas para os problemas que afligem a humanidade.

 

O país que encontramos no início de 2023 era uma “terra arrasada”, fruto de um projeto de destruição neoliberal que, desde o golpe de 2016, desmantelou políticas sociais, sucateou o Estado e promoveu um retrocesso civilizatório sem precedentes. A união e reconstrução nacional, portanto, não foi apenas um slogan, mas uma tarefa urgente e complexa de resgate da dignidade e da soberania, até aqui conduzida com sucesso pelo PT.

 

Em tempo recorde, tiramos o Brasil do Mapa da Fome, levamos o desemprego à mínima histórica, garantimos aumento real do salário mínimo e retomamos o Minha Casa Minha Vida e o Novo PAC. Rompemos, na prática, com o dogma de que o Estado não deve induzir o crescimento.

 

Mas nosso projeto vai além da gestão; ele é enraizado nas lutas populares. O PT reafirma a força do campo e a defesa intransigente da reforma agrária e da agricultura familiar. Foram as políticas recuperadas pelo nosso governo — como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o crédito facilitado e a garantia de merenda escolar saudável — que devolveram a dignidade ao pequeno agricultor, que coloca a comida na mesa do povo.

 

Essa reconstrução só é possível porque governamos com e para a diversidade do povo brasileiro. O PT é o partido das mulheres, que sustentam famílias e comunidades; dos negros e negras, que exigem o fim do racismo estrutural; das comunidades quilombolas e indígenas, guardiãs da nossa ancestralidade e do meio ambiente; e da população LGBTQIA+, que luta pelo direito de existir com respeito. Não há democracia plena sem a inclusão real de todas essas vozes.

 

Apesar das vitórias, os desafios que se impõem ao Partido dos Trabalhadores e ao governo Lula são imensos e exigem uma atualização programática e tática à altura deste momento histórico. A luta de classes se manifesta em novas frentes. Nosso projeto socialista e democrático deve apresentar respostas concretas e imediatas para as demandas da economia popular.

 

A revolução tecnológica, impulsionada pela Inteligência Artificial (IA), apresenta um desafio inédito ao mundo do trabalho, especialmente para a juventude. O PT também deve liderar o debate sobre a regulação das Big Techs, não apenas para combater a desinformação e a manipulação política, mas para garantir que o avanço tecnológico sirva ao desenvolvimento humano e não à concentração de riqueza e poder.

 

O PT deve abraçar e liderar o debate em torno das pautas que impactam diretamente a vida do povo trabalhador, transformando-as em bandeiras de luta e compromissos de governo:

Mundo do Trabalho: Vamos reduzir a jornada de trabalho, lutar pelo fim da escala 6×1 e disputar o conceito de empreendedorismo. Para nós, empreender não é a precarização do “bico”, mas ter crédito e direitos para crescer com segurança.

 

Justiça Social: Celebramos a histórica aprovação da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, conquista da nossa base que valerá a partir de 2026, e seguiremos avançando na luta pela Tarifa Zero no transporte público.

 

Segurança Pública: Enfrentaremos esse debate sem medo. A segurança é um direito da família trabalhadora. Defendemos a autoridade do Estado Democrático para libertar os territórios das milícias, do crime organizado e seus sócios na Faria Lima, com inteligência e sem a barbárie da violência policial.

 

A extrema direita não foi derrotada, apenas contida. Novas batalhas virão, novas vitórias serão necessárias. Nossa base de 3 milhões de filiados deve ser o motor de uma frente ampla que impeça o retorno do obscurantismo e projete um futuro diferente para o Brasil. O PT está pronto: unir, organizar e lutar para consagrar Lula a um quarto mandato.

 

O 8º Congresso será um marco da nossa ofensiva democrática. A tarefa que se impõe ao partido e a toda a militância é a de aprovar o programa de governo e a tática eleitoral do próximo ano, atualizar o programa do Partido e reorganizar nosso funcionamento, fazendo as devidas alterações estatutárias. Nada disto é um rito burocrático. Trata-se de um esforço de reflexão para reafirmar o papel histórico do PT como a maior força de esquerda da América Latina e o principal motor de transformação social no Brasil.

 

Com vistas à realização do 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, entre os dias 23 e 26 de abril de 2026, a Comissão Executiva Nacional (CEN) constituiu, no dia 17 de novembro, a Secretaria do Congresso Nacional do PT.  A executiva aprovou, também, os seguintes cargos e dirigentes, responsáveis por organizar o processo de debate, com a urgência e a seriedade necessária para que o Partido enfrente com êxito os desafios das próximas décadas.

 

Secretário-executivo: Jilmar Tatto

Programa de Governo: subsecretário Cristiano Silveira

Conjuntura e Tática Eleitoral: subsecretária Anne Moura

Programa Partidário: subsecretário José Dirceu

Atualização Estatutária: subsecretário Valter Pomar

Fundação Perseu Abramo: Paulo Okamotto

Brasília, novembro de 2026